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A Isabel passa a maior parte do seu tempo em Lisboa, no restaurante “Batata Doce”, do qual é proprietária, junto com seu marido, João. Um espaço que diz ser o prolongamento da sua sala, porque aquilo que realmente gosta é de receber e conhecer pessoas. E para isso Isabel faz uso de dois enormes trunfos que nasceram consigo: um sorriso contagiante e o jeito enorme para a culinária. Ingredientes suficientes para atrair clientes de todos os quadrantes. A ementa é variada e cruza a gastronomia portuguesa com a angolana, não fosse Angola o país de origem da Isabel.

Antes do Batata Doce, Isabel tomou conta das concessões dos bares de quase todos os teatros de Lisboa. Durante 22 anos alimentou muitos actores e actrizes donde resultaram grandes amizades que ainda hoje duram. Antes disso Isabel fez comida para fora, trabalhou em prontos-a-comer e hamburguerias e foi nesta altura que conheceu João Castanheira, também ele ligado ao ramo como empregado de mesa num restaurante para o qual Isabel fornecia sobremesas. Começaram a namorar e passados dois anos nascia a Joana. O segundo bebé chegou 2 anos mais tarde, um rapaz chamado Francisco. Em 2021 completou 27 anos.

Em criança Isabel sonhava ser bailarina e mais tarde enfermeira “mas daquelas que manda” afirma sorridente. O destino reservou-lhe outro futuro mas ainda hoje gosta de dançar.

Isabel é conhecida por todos no bairro da Lapa, mais concretamente na Rua S. João da Mata, onde se situa o seu restaurante. Mas não é só pelas iguarias que os clientes deslocam-se ao Batata Doce. É também pela curiosidade em querer conhecer a protagonista de uma longa história, com final feliz. Daquelas que dava um filme. Para isso, precisamos de recuar a Janeiro de 1965, tinha Isabel 2 anos de idade. Vivia-se em pleno período da guerra colonial com sucessivos confrontos entre as Forças Armadas Portuguesas e as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas colónias. Foi neste contexto, em Angola, que a vida de Isabel mudou para sempre.

Certo dia, sua Tia Eva encontrava-se no meio do mato entre o capim, de mão dada com a sua irmã Isabel e às costas levava a outra Isabel, a “Batata Doce”. Repentinamente ouviu um barulho, pensou tratar-se de um javali. Agarrou num pau para afastá-lo e nisto ouve um tiro. Assustada, começou a correr e a pequena Isabel “Batata Doce” escorrega-lhe das costas. Os militares portugueses ainda chamaram por ela, mas desconfiada já não voltou atrás.

Reportaram de imediato o sucedido, tendo sido acolhida pela companhia e levada ao comando. O Batalhão 525 tinha agora uma nova missão: cuidar de Isabel a quem carinhosamente puseram o nome de Batata Doce, o seu alimento preferido.

Primeiros tempos em Portugal

“Quem te salvou foi o teu sorriso” afirmou um militar. De facto, Isabel passou a ser o centro das atenções e motivo de conversa diariamente. Não só veio trazer outra alegria ao batalhão, como lembrou a todos a importância do lado humano, em tempo de guerra.

 

Neste contexto, foram vários os que demonstraram um carinho especial por Isabel, dos quais se destacam: Antonino Araújo, alferes, que encontrou Isabel no mato e decidiu levá-la com o pelotão. Marcelino Teixeira de Carvalho, oficial miliciano, cuja mulher, Visitação, e a filha Luísa de 2 anos – a mesma idade de Isabel - o acompanhavam no quartel de Catete. Luísa e Isabel passavam os dias juntas e tornaram-se as melhores amigas. Até hoje. Manuel Cândido Ferreira, que tratava dos banhos e das refeições de Isabel e nunca escondeu o desejo de um dia levá-la para Portugal. Mas foi Manoel Junqueira, comandante do batalhão, e sua mulher, Margarida, que se anteciparam e ficaram com a tutela da pequena Isabel, logo após o fim da missão em Angola, trazendo a “Batata Doce” para a metrópole. Aos 3 filhos do casal, que em breve recomeçavam a escola, juntou-se Isabel, e a família cresceu.

Foi sempre tratada como filha e devidamente acompanhada durante o seu crescimento. Viveu num ambiente de princípios, de boa educação e respeito pelo próximo. De 2ª a 6ª feira era interna no colégio mas os fins-de-semana e as férias eram passadas com a família Junqueira.

Dos 5 aos 12 anos Isabel estudou no Colégio do Alvor, em Paiões, Sintra. Quando terminou o ciclo preparatório mudou‑se para uma escola mais perto de casa, as Filhas de Maria Imaculada, no Bairro de São Miguel, onde se seguiram mais quatro anos de internato.

Quando tinha 14 anos recebe a triste notícia da morte de Margarida Junqueira, mãe adotiva, que a fez pensar que estava na altura de se tornar independente. Encontrou trabalho no Porto, na mesma irmandade de freiras onde tinha estudado. Se de início tinha o apoio do coronel, mais tarde perdeu essa ajuda porque tinha reprovado na escola, e assim ficou por sua conta. Decidiu ir viver para Lisboa onde contou com a ajuda do capitão Altinino Gonçalves, antigo oficial em Angola, que não só a recebeu em sua casa como arranjou-lhe trabalho na Portugal Telecom. Quando a vida estabilizou Isabel foi viver com uma amiga com quem dividiu casa. Para pagar as contas começou a tomar conta de crianças e idosos ao mesmo tempo que fazia comida para abastecer restaurantes. E a partir daqui o gosto pela culinária nunca mais parou até ter o seu próprio espaço.

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2017: regresso a Angola

Isabel pouco ou nada sabia da sua vida. Curiosa quanto baste, passou a frequentar os encontros do batalhão 525 e daqui até aos arquivos do jornal DN foi um salto. Tudo porque foi-lhe dito, que em Outubro de 1965, tinha sido capa do jornal a notícia do baptizado de Isabel pelas tropas portuguesas, no Santuário do Sameiro, em Braga.

 

A consulta aos arquivos e a pesquisa incessante durou um mês, com um final feliz. O jornal foi encontrado. Perante tal descoberta, rapidamente circulou nos corredores do DN a oportunidade jornalística de contar esta história. Mas não era só Isabel que queria saber do seu passado e da sua família de origem. Angola também procurava pela Batata Doce. No Verão de 2015, Isabel recebe um telefonema e mais tarde a visita de Roberto Paulo, residente em Angola, mas de férias em Portugal, onde tinha estudado. Trazia consigo uma missão, a pedido de Branca Jacinto que lhe pediu para “encontrar a irmã levada pelos portugueses há 50 anos”. Através de uma busca no computador, todas as pistas levavam ao restaurante Batata Doce. Feliz coincidência, pensou Roberto, quando veio a confirmar que a dona era a pessoa que procurava.

Era cada vez mais curta a distância entre Isabel e a família biológica. Ainda assim foram precisos 52 anos. Chegados a 2017, e depois de alguma preparação, sobretudo mental, Isabel decide regressar a Angola para recuperar o passado, conhecer a família e voltar a nascer. Foi recebida em ambiente de festa, entre muitas lágrimas, inúmeros abraços e muitas histórias para ouvir. Agora Isabel sente-se completa.

Personalidade

Isabel é dona de uma energia positiva e contagiante sem nunca esquecer a enorme auto-estima que cultiva frequentemente. Todos os dias vê-se ao espelho e diz “gosto muito de mim”. Foca o pensamento nas coisas boas e na adversidade procura dar a volta por cima. Nunca desiste, nunca se desvia dos seus sonhos. Em sintonia com a humildade que a caracteriza, Isabel tem como ambição chegar ao fim do mês com dinheiro para pagar as contas e viver com dignidade.

Dá muita importância à boa educação e ao respeito pelo próximo. Tem facilidade em perdoar, não guarda rancor. “A vida encarrega-se de fazer justiça”. Tem muita facilidade em fazer amigos e lembra que “estou neste mundo para fazer as pessoas felizes”.

Com um percurso atribulado e longe da família diz que a sorte sempre a acompanhou e assim continua, mas “o mais importante é o mérito, porque a sorte não sabemos quando chega”. Parte do mérito deve-o à família de acolhimento, a família Junqueira, de quem recebeu a maior herança: educação, amor e carinho.

Aos mais novos deixa um conselho: “nunca desistam dos vossos sonhos”.

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Imagens: arquivo de Isabel e arquivo de Rui Oliveira / JN e DN